segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Jogo de dominó

O psiquiatra Ezequiel Gordon estimula quem quer perder peso fazendo uma associação inteligente com o velho jogo de pedras pretas e brancas

O jogo de dominó tem regras bem definidas, que permite ao participante traçar estratégias para sair-se vencedor. Ao iniciar o jogo, eu sorteio as sete pedras que me caberão, não posso trocá-las meramente porque não gostei da configuração. Com estas peças ao acaso por mim escolhidas é que terei que me conduzir até o final da partida, tendo sido do meu agrado ou não. Por aproximação à sabedoria religiosa do Hinduismo, poderíamos dizer que este é o nosso carma, é o pedaço que nos toca e com o qual deveremos contar indelevelmente.

Posso ter pego um grupo de peças muito ruim, como, por exemplo, ter entre as minhas sete pedras quatro que tem um número dobrado (algo que na minha cidade natal chamávamos de "carretão"), e que diminui bastante a probabilidade de coloca-las à mesa quando chegar a minha vez de jogar. Por outro lado, posso dar de cara com um jogo altamente favorável, como, por exemplo, ter cinco peças contendo o mesmo número que propiciará fechar a mesa para os oponentes ganhando tempo precioso para fechar a partida à frente dos demais.

Ocorre que a regra do jogo não permite que estando eu de posse de uma mão sofrível venha a me declarar perdedor ou estando com um jogo alvissareiro venha a reclamar a vitória sem que antes maneje as pedras até o fim, confirmando em um ou em outro caso a derrota ou a vitória. Há uma máxima que diz: "O jogo tem que ser jogado e o lambari tem que ser pescado". Isto se deve à possibilidade de que, apesar da desfavorável sina, eu me conduzir tão bem no jogo, que possa sair vencedor ou, no segundo caso, esgrimir com tanta imperícia, que acabe perdendo uma partida que se assegurava vencedora. A esta maneira com a qual eu vou reger a minha conduta pessoal, podemos, novamente invocando o Hinduismo, chamá-la de darma.

 

Com a questão do emagrecimento poderíamos usar o esquema do jogo de dominó como analogia. Seja, por exemplo, a herança genética o nosso carma, ou seja, as pedras com as quais fomos contemplados. Digamos então que eu sou gordo e as famílias de ambos os lados são constituídas de grande número de indivíduos anafados. Certamente neste caso terei sido sorteado com peças muito ruins para desenvolver o jogo do emagrecimento. Situação inversa se daria se eu não tivesse nenhum parente obeso por parte de pai ou de mãe. Com esta configuração a minha peleja em busca do emagrecimento se iniciaria com pedras de qualidade invejável.

Mas, aqui, tanto quanto no dominó, não posso proclamar derrota ou vitória sem que a partida termine, pois mesmo tendo uma genética que conspira contra a minha ânsia de perder peso, posso manejar com destreza as peças deste jogo, alcançando um sucesso antes impensável, bem como posso por a perder o meu favoritismo com o qual iniciei a campanha, manejando com tal imperícia o meu jogo, que coloco tudo a perder. Estas ações que coloco em prática, efetivas ou não, são o darma e delas dependerá, tanto quanto das condições à priori estabelecidas, o sucesso da minha empreitada.

Com isso quero posicionar-me entre aqueles que acreditam que a posição do sujeito não é passiva diante da natureza, muito pelo contrário cada um de nós é autor do enredo que é a história da nossa vida, enredo no qual somos também atores e que cabe a nós a possibilidade da sua reinscrição. Somos gordos enquanto estivermos ocupando o lugar do gordo, que nos é fornecido e sempre solicitado pelas condições somáticas, pela nossa subjetividade, seja consciente ou inconsciente e pelo meio social, que tenta nos subjugar para desempenharmos uma função de objeto de exclusão, necessário para o "status quo". A palavra chave na recuperação da obesidade é mudança no sentido de uma transformação.

Severina era uma senhora de quase 50 anos e que além de estar numa condição avantajada de obesidade estava diabética e hipertensa. Tinha uma história triste de relação tumultuada com a mãe, da qual dizia que não a amava e que punha veneno de rato no leite de sua mamadeira. Pouco importa se este acontecimento foi real ou imaginário, o fato é que assim sentiu esse período da sua vida. Atualmente tem um marido que a mima com muitos doces e guloseimas, mesmo sendo ela diabética, ou seja, trocaram as personagens, mãe por marido, veneno de rato por glicose, mas o enredo continua o mesmo sendo Severina envenenada pelo seu cuidador.

Severina é a autora e atriz desta novela e o final, no que concerne ao emagrecimento não será bem sucedido, mesmo que suas pedras de dominó sejam as mais favoráveis possíveis, pois Severina nada faz para transformar sua história em uma outra história.

Ezequiel José Gordon é psiquiatra e coordenador do Grupo de Estudo e Tratamento da Obesidade (Gesto). Fale com ele através do e-mail ezejogo@uol.com.br
Foto (dominó): Getty Images

Matéria publicada no site http://itodas.uol.com.br

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