quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Você quer mesmo emagrecer?

 

O colunista Ezequiel Gordon fala da importância da força de vontade na hora de perder peso. Leia o texto do médico psiquiatra que é especializado no tema

O que é que vocês vieram buscar aqui? Invariavelmente faço esta pergunta ao grupo de pessoas obesas, que vem procurar nossa equipe de atendimento para iniciar mais um tratamento para este aflitivo problema. Segue-se um silêncio profundo, indicativo da perplexidade causada por tão ingênua colocação que rapidamente dá vez a olhares reprovadores como a me acusar de fazer questões tolas.

Por diversas vezes eu me vi pensando que esta pergunta seria efetivamente uma tolice se não fosse a convicção de ser este é um ponto fundamental, quando se propõe a combater os efeitos da obesidade.

Pois bem, insisto em querer uma resposta, que acaba chegando na forma de: "É evidente que vim aqui para emagrecer".

A resposta óbvia. Que explicita a demanda dos candidatos ao tratamento, encobre o real desejo dos mesmos, qual seja: queremos ser emagrecidos. Sim, que maravilha seria se as coisas funcionassem da mesma maneira como acontece com o meu automóvel. Outro dia, meu carro sofreu uma pane mecânica e eu o levei à oficina do meu amigo Zezinho, que o examinou, fez o diagnóstico, orçou os custos e disse taxativo: "Volte em três horas que ele estará pronto". Dito e feito. Neste espaço de tempo fui assistir a um filme no cinema do shopping e a,o retornar, maravilha! Lá estava o carro funcionando direitinho.

Mas com a obesidade não se passa do mesmo modo. Não é possível ir ao CRATOD (unidade da Secretaria de Estado da Saúde aonde o GESTO atua seu programa) deixar o corpo gordo lá nas mãos da equipe de profissionais e após três horas de passeio, compras voltar e buscar este corpo, agora emagrecido dentro das mais auspiciosas expectativas sonhadas pelos seus donos e exigidas pelos atuais modelos culturais, que a sociedade nos impõe.

Interessante notar que nós profissionais também compartilhamos desse conto de fadas, acreditando poder mudar este corpo só com o nosso empenho e com a nossa competência, prescindindo da participação do sujeito interessado. Isto não só não é passível de ser alcançado, como também não seria útil ao próprio indivíduo, se assim pudesse ocorrer. Para defender esta última afirmação, lanço mão de uma parábola na qual um menino observava a eclosão da borboleta saindo de seu casulo e se penalizava ao ver quanto esforço, quanta energia a borboleta despendia para realizar tal feito. Resolveu interferir, auxiliando o pobre inseto a livrar-se de sua apertada prisão, usando para tanto, com cuidado uma tesoura para, delicadamente, cortar as bordas do pesado invólucro.

De fato, a borboleta viu facilitada sua saída, porém nunca pode voar, porque, e isto o menino ignorava, o esforço que fazia para sair do casulo era necessário para impelir a linfa, que daria vigor às suas asas. A obesidade seria como o casulo e o uso da tesoura é como a eliminação dos sintomas sem a participação efetiva do sujeito, pois sem esta o corpo adelgaça, mas a transformação só se dá na aparência, ou seja, o inseto sai do casulo, mas não se realiza como borboleta.

A senhora, que chamaremos de Lucinda, portadora da condição de obesa mórbida, estava com nossa equipe havia dois anos. Como bons resultados obtidos no seu empenho em deixar de ser gorda estavam uma importante melhora da sua auto-estima, uma facilidade maior em relacionar-se com as outras pessoas e um sentimento de potência a substituir o de fracasso. Entretanto o seu peso mantinha-se e este era o ponto fraco do seu tratamento. Havendo se inscrito num programa de cirurgia do estômago, acabou sendo chamada e já de posse de todos os requisitos para ser operada, estando internada com sua cirurgia marcada, toma uma decisão: resolve não ser operada, levanta-se do leito e vai embora do hospital.

Atualmente, passados mais dois anos emagreceu cerca de um terço do seu peso inicial e sua preocupação atual é encontrar condições de fazer cirurgia plástica, pois quer livrar-se dos excessos de pele, advindos da perda de peso. A questão aqui não é do tratamento adotado, mas da participação efetiva que teve na sua recuperação. Lucinda quis emagrecer e não ser emagrecida.

 

Ezequiel José Gordon é psiquiatra e coordenador do Grupo de Estudo e Tratamento da Obesidade (Gesto)
ezejogo@uol.com.br

Matéria publicada no site http://itodas.uol.com.br

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