quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A hora de perdoar é agora

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Um ato amoroso que começa em nós mesmos e demanda muita reflexão e autoconhecimento. Daí pode-se voar para uma vida mais saudável – pois o perdão ajuda a barrar uma série de doenças – e surge uma deliciosa e perene sensação de paz.

Texto • Chantal Brissac

Uma técnica havaiana, chamada oponopono, que significa “amar a si mesmo”, prega a cura interior antes de trabalhar o que está fora. Em outras palavras: à medida que você se cuida, seu mundo se modifica para melhor. Segundo o escritor e arquiteto Carlos Solano, essa técnica, usada para fazer prosperar a condição da casa, também pode ser adotada em prol dos relacionamentos amorosos, familiares e profissionais. “Eu sinto muito, eu te amo” é um dos mantras do oponopono, uma amorosa forma de dizer perdão. “Acho que o fato de perdoar, seja um acontecimento, seja uma pessoa, afeta a estrutura inteira de sua vida. Tanto faz escolher perdoar se primeiro ou a outra pessoa. O que conta é entrar na freqüência do perdão, que libera o peso do passado e abre caminhos”, afirma Solano.

Perdoar, afinal, não remete apenas ao outro, mas, primeiro, a si mesmo. E isso, acredite, faz um bem danado: para a saúde do corpo, para o bem-estar da alma, para os relacionamentos e é uma habilidade que pode ser aprendida e praticada por qualquer um por meio dos mantras do oponopono ou até por exercícios de autoanálise.


Essa segunda possibilidade é proposta pelo psicólogo americano Fred Luskin, que fez do perdão seu objeto de estudo. Luskin é diretor do Projeto do Perdão da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e pesquisa isso há décadas. O tema é abordado em sua mais recente obra, Aprenda a Perdoar e Tenha um Relacionamento Feliz (ed. Ediouro). “Muitos casais se mantêm irritados durante anos com pequenas coisas, outros vivem ressentidos em casa ou no trabalho. Perdoar não é ser condescendente com a grosseria do outro ou se reconciliar com alguém que você não quer mais como parceiro. O perdão ajuda você a ter controle sobre seus sentimentos, é uma habilidade que pode ser aprendida e praticada em sua rotina”, disse Luskin em entrevista a BONS FLUIDOS. Isso significa tolerar o motorista que deu aquela fechada no trânsito, desculpar a atendente da loja pelo mau humor, se perdoar por sentimentos negativos, ações incorretas e histórias passadas.

O bem que faz para a saúde


Segundo o especialista Fred Luskin, perdoar ajuda a barrar o desenvolvimento de problemas cardíacos e reduz os índices de câncer e outras doenças ligadas aos sentimentos negativos. Além disso, traz o delicioso sentimento de paz. “Paz na mente, no corpo e no espírito. Há um grande alívio por não precisar guardar mais ressentimentos, rancores e mágoas. No início da prá tica, a paz surge em pequenas on das, mas, com o tempo, vai tornando a pessoa mais forte, mais cal ma e capaz de enfrentar outras dificuldades”, afirma.

 

Luskin ensina seu método em sete passos e tem um site sobre o assunto. Ele mostra, por exemplo, que precisamos aprender, primeiro, a desculpar as pequenas atitudes do dia-a-dia. As coisinhas que incomodam, como o fato de o seu parceiro ter esquecido de levar o cachorro para passear. Outros pontos em que o psicólogo americano toca: cada um de nós deve reconhecer que ninguém é perfeito – inclusive a gente mesmo –, aceitar o que não podemos mudar e ter paciência consigo. O pesquisador já exercitou o método de trabalho com casais, jovens e profissionais de empresas. Uma de suas experiências mais marcantes foi um projeto realizado na Irlanda do Norte com famílias que perderam os filhos por causa da violência política e religiosa. “Ao conseguir perdoar os assassinos de seus filhos, as mães deixaram a depressão e o pessimismo, adquirindo força para lidar com isso”, conta.


Para o teólogo Francisco Catão, escritor e professor de teologia do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal), existem duas categorias de pessoas quando o assunto é perdoar: as que entendem o perdão e as que não entendem. “Essa atitude é a caixa-preta da paz”, afirma. E, assim como as teorias de Luskin e a técnica havaiana do oponopono, o teólogo Catão acredita que o ato de perdoar possibilita um grande aprendizado – sobre o outro e sobre si próprio – e coloca as relações humanas em outro patamar: “É o nível do amor, o que falta na humanidade hoje”, finaliza. Então, que tal começar o ano treinando o perdoar? Quem mais ganha com isso é você.

Hearts

A palavra em si

A palavra perdão guarda muitos significados. O filósofo Mario Sergio Cortella lembra que o prefixo per, em latim, sempre dá o sentido de “por inteiro, completo, concluído”. “Por isso, perdoar significa doar por completo, oferecer completamente, entregar sem retorno. Em outras palavras, perdoar é apagar de forma sincera e definitiva qualquer ressentimento e responsabilização de outrem por algo negativo que causou”, ele explica.

Hearts

Eu me perdoei

“Eu tinha 17 anos quando saí de meu primeiro relacionamento e conheci um DJ numa balada, Celso. Foi uma história turbulenta, que durou dez anos, recheada de ciúme e brigas. Quando descobri que ele havia me traído, resolvi perdoar. Mas era um perdão aparente. Eu não estava pronta para superar a mágoa: emagreci, não dormia direito, me sentia um lixo e nos separamos. Após a separação, conheci alguém que me fez enxergar a vida de outra maneira e me ensinou a amar e ser amada. Investi nesse outro amor, que terminou algum tempo depois. Recentemente, tive uma sucessão de acontecimentos desagradáveis e perdas doloridas. Sofri um acidente de carro, perdi uma tia querida e, em seguida, uma sobrinha de apenas 15 anos. Nesse momento, Celso se reaproximou e, até hoje, tem me ajudado a superar essas tristezas. Estamos vivendo um relacionamento de confiança e compreensão. E acho que isso só foi possível porque, nos últimos cinco anos, cuidei de mim e fui em busca de meus sonhos. Acredito que todas essas etapas foram vividas para que eu pudesse dizer que o perdoei de coração. Mas, principalmente, perdoei a mim – eu me sentia culpada pela morte de minha sobrinha. O que ajudou a ter esse entendimento sobre mim mesma? As longas conversas com os amigos, a leitura, o trabalho, as aulas de flamenco e de capoeira. No fim das contas, muita risada. A capacidade de ter mais bom humor no dia-a-dia é a melhor maneira de encarar a vida e buscar, em primeiro lugar, o autoperdão.”
CRISTIANE MARIA ALVES, 36 anos, profissional de informática

 

 

*Matéria publicada na revista “Bons Fluidos” – Dezembro de 2008.

http://bonsfluidos.abril.com.br/

 

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